Um a um
Uma casa decadente
Um dia de chuva
Uma noite mergulhada no tédio
Um olho embaçado
Um dia sem gosto
Uma noite com alguém
Um olho no meu
Uma casa fria
Uma noite que esteja
Um dia que passe
Um olho que me veja
Uma casa que não prenda
Um dia que seja
Uma casa que não prenda
Um olho que repara
Uma noite que não termine
Excessos
Andava de madrugada, deitado em seu próprio quarto, estava satisfeito. Depois de um bom jantar, e uma reflexão minuciosa apresentando os prós e contras de seu dia, viu ali a justificativa para continuar vivo. Suas conquistas maximizavam seu nível de satisfação, sentia-se realizado, completo e, por si só, estupefato. Sentia, em seu estômago, um mal estar, uma sensação de que suas entranhas percorriam todo o seu sistema digestório.
Esse é o início do enjoo.
Refletiu e percebeu que não havia razão para aquela condição. Perdido naquilo que considerava correto sentia-se preso.
Sem respostas utilizou as mãos para chegar ao teto, às paredes e, finalmente, ao chão. Sentindo um cheiro estranho mudou de direção e, de repente, ouviu um barulho: “Alguém?”. Silêncio.
Abriu os olhos e não podia ver.
Na escuridão chegou a um espelho. De pé viu sua condição, deitado, cego surdo mudo e preso à letra que, acreditava, seria ele mesmo. Olhando-se no espelho percebeu que sentia frio, sentia. Essa sensação não era uma simples resposta, tratava-se da dúvida.
Abriu os olhos e pôde respirar. As luzes se acenderam e ele sentia fome novamente.
As folhas
Voltei para casa nadando. Submerso em lembranças pude ver o caos ao meu redor, as pessoas conversando, a mulher com seu guarda-chuva no meio de uma noite estrelada, as folhas de caderno, com desenhos sem sentido, misturadas com as das árvores – secas em pleno verão.
Ao analisar as folhas verifiquei que os desenhos tinham uma ordem lógica, contavam uma história. Ao ouvir a conversa compreendi o assunto, pisei numa poça d’água. Olhei para baixo e senti a chuva que caiu antes de mim. Olhei para o alto e, respirando aliviado, observei as estrelas.
O suspiro morreu em segundos, o alívio pareceu durar anos, perguntei: Como explicar as folhas secas? Abri os olhos e observei a morte da fala, a fuga da mulher e a história que não mais podia ser contada. Foi nesse contexto que me vi. Sufocando concluí que fazia parte daquilo. Senti uma brisa no rosto, vi que as folhas secas se mexiam e que não foram explicadas… acendi um cigarro e continuei a caminhar.
Um paraíso solitário
“O inferno são os outros”
“É solitário andar por entre a gente“
Qual a vantagem de ser sozinho. Ele não sabia mais nada. Caminhava e, solitário, observava a paisagem. Não estava mais interessado nas pessoas, pois não se identificava mais com elas; ao observar as árvores via, ali, seu reflexo, ao ouvir o som da água sentia nela o calor do seu corpo e ao ver o céu sentia que estava sendo transportado à realidade novamente.
Qual a vantagem de estar sozinho. Ele chegou em casa. Trancou a porta e, cansado, foi para o seu quarto. Não precisava cumprimentar ninguém, pois ninguém estava ali; ao ver seu quarto concluiu como as coisas haviam mudado, ao escutar a secretária eletrônica – que não tinha nenhuma mensagem – pode respirar e perceber que ele não era mais nada além dele mesmo.
A solidão era fato intrínseco à sua vida, era dependente dela, quase como uma droga. Sentia, a cada vez que confrontava sua condição, a solidão penetrar suas células cerebrais liberando endorfina e lhe dando cada vez mais prazer. Qual a vantagem da solidão? Ele respirava só por ele, ele comia só por ele, ele não esperava. O escritor de sua própria história era ele, só. Mas qual a vantagem de se escrever uma história que ninguém vai ler? Ele, através de sua janela, refletia.